Codinome Beija Flor

Estou deitada na cama e minha cabeça pende da beirada, fazendo que eu veja tudo de cabeça pra baixo. Gosto de estar assim. Alguns dizem que isso ajuda a pensar melhor e outros alertam sobre os riscos do fluxo aumentado de sangue para o cérebro. Pra mim não é nada disso. Não, nada assim. Quando estou de ponta cabeça, o chão se torna meu céu. Os meus limites e os limites dele me permitem toca-lo. Assim ganho perspectiva, algo caro para pessoas assim como eu, que vivem por sonhar acordados, um jeito de não sentir dor.

Chove lá fora. Já há alguns dias que temos dias iguais, com chuva intermitente, calçadas molhadas e pessoas que abraçam a si mesmas quando lufadas de ventos trazem a água pra debaixo do guarda-chuva. Em contra partida ao meu caráter sonhador e a tão super estimada positividade que transpareço ter, esse é o meu clima favorito. Gosto da seriedade e do aconchego de dias assim, em que tudo o que todos querem é aquela caneca de café preto e quente na companhia de quem se ama. As vezes apenas de si próprio, o que é muito louvável. Amor próprio é tudo.

Sei disso. Agora.

Aqui dentro, em algum lugar do apartamento, Cazuza canta, embalando pensamentos sobre o amor. É uma música conhecida, mas não aquela que fala sobre o tempo que não para e nem a que pede pro Brasil mostrar a sua cara. Não, não é aquela música que por alguém faz tudo e traz rosas roubadas, nem a que pede mentiras sinceras que interessam. Nem é nada inventado para se distrair. Dessa vez ele não me leva pra festa, nem testa meu sexo com ar de professor.

É aquela que fala do meu último amor.

Mas não é a nossa música. Não. A nossa música nunca mais tocou.

Tento prender o choro. Fecho os olhos com força e, mesmo assim, as lágrimas escapam deles e com rapidez surpreendente alcançam o meu céu.

Prometi proteger seu nome por amor. Prometi proteger a ti, por amor. Guardei-o dentro de mim e até mesmo de mim para quando tivesse certeza, para quando me desse certeza. Não pensava em você da mesma forma que o resto do mundo, imagine então como eu te sentia. Te dei um codinome. Beija flor.

Quando a certeza veio, gritei o seu nome aos quatro ventos que o levariam aos quatro cantos do mundo. Escrevi na areia da praia, marquei com minha chave dentro de um coração numa árvore, deixei anotado como rabisco distraído no canto do caderno. Amei a ti, a teu nome e codinome. Mas principalmente a ti.

Estávamos juntos enfim. Andávamos de mãos dadas, falávamos bobagens, fizemos nosso mapa astral e sim, nós descombinávamos em signo, ascendente e lua. Não que você acreditasse nessas bobagens, mesmo eu batendo o pé dizendo que se não tava escrito nas estrelas não era pra ser. Então você me beijava. Fazia ser e se fosse preciso eu escalaria as nuvens para escrever nas estrelas eu mesma.

Lembra das nossas brigas? Como esquecê-las, não é mesmo? A maioria começou por frivolidade evoluiu para desabafo e acabou na cama. Aliás, a última sempre foi a minha parte favorita. Devo até confessar que causei umas discussões aqui e ali só para no fim termos a nossa reconciliação, fazendo amor com o calor da nossa briga e de intensa paixão. Percebo que isso rima e penso em todos os versos combinados que fomos.

Fomos. A nossa música nunca mais tocou.

Agora, achando a mim mesma a fim de te encontrar, faço com que as coisas se encaixem e consigo ver com bela resignação o que não consegui nos primeiros dias depois do “acabou, Ana”. Acabou mesmo. Acabou o nós. Acabou comigo, Ana, nos primeiros dias. Não comi, não bebi, respirei pela simples mecanicidade da coisa.

Vejo agora tudo o que não era bom, tudo aquilo de que não sentiria saudade. O apartamento arrumado demais. Não sentirei saudade da sua mania arrumar os talheres no escorredor de louça, nem do constante estralar de dedos. Não to nem um pouco ansiosa por escutar um grito seu vindo do banheiro, me pedindo pra pendurar a toalha do lado esquerdo da sua e para não deixar meus anéis na saboneteira. Aquele vaso na mesinha de centro parece um cinzeiro e sempre foi muito gentil em receber os restos dos meus cigarros, mesmo que você me expulsasse pra varanda. As vezes as portas dos carros exigem força para serem fechadas, sabe? Não quero mais ouvir falar de sua alergia a nozes e lhe prometo que daqui pra frente só consumirei produtos que tenham essas belezuras como matéria-prima.

Mesmo assim, devo pedir desculpas por ter bagunçado seu apartamento. Passei a organizar os talheres no escorredor e na gaveta e estralo os meus dedos de 15 em 15 minutos, religiosamente. Dentro de mim ainda ressoa o seu grito e eu pego a toalha molhada, abandonada em cima da cama e a penduro no banheiro, a esquerda de onde estaria a sua. Tenho agora uma caixinha em cima da pia, onde guardo meus anéis. Os tiro antes de entrar no chuveiro. Sobre isso, peço perdão por eles terem te machucado algumas vezes. Eles e minhas unhas vermelhas longas demais pro seu gosto. Prometi parar de fumar, mas me deixa continuar usando o vaso como cinzeiro? Não posso fazer nada sobre a porta do carro, infelizmente. Eu nem gosto de nozes, mas as comeria se você não fosse alérgico.

Se importa se eu ficar com aquela sua camisa antiga do seu time de futebol preferido? Ela já tá toda gasta e gosto de como ela me abraça quando a faço de pijama. Se importa se aquela nossa foto fazendo careta continuar no meu criado mudo atrás do despertador? Gosto de essa foto ser a primeira coisa que eu vejo todos os dias, me motivando a levantar e dizendo “do que vamos fazer piada hoje?”

Não sei se quero devolver seus livros. Fica com os meus. As notinhas de rodapé e as marcações que fiz para que você prestasse atenção aquele trecho tornam o livro mais seu do que meu. Mais seu até mesmo do que do próprio autor. Fica com eles. Mas prometa relê-los sempre que sentir necessidade e nunca marcar as páginas com a orelha do livro.

Quero permissão para visitar o Conde. Podemos compartilhar a guarda dele. Me apeguei ao seu cachorro e sei que aquele bola de pelos cor de café vai sentir minha falta. Posso levá-lo para passear todos os dias, quando sair do trabalho. Ainda tenho sua chave e não se preocupe, nossos horários não coincidem, não seremos obrigados a nos ver. Além de constrangedor, não quero que aconteça.

Não precisamos nos encontrar. Não vejo porque nos ver. Quem não vê o cara não cai em tentação. E sei que, se nos vermos de novo, não vamos resistir e nem haverá nada que possa nos impedir. O magnetismo que uniu nossos corpos por tantas vezes vai estar lá. A familiaridade convidativa dos seus lábios. A vontade da sua pele. Não. Melhor não nos encontrarmos e não mudarmos assim o significado do fim.

Não minta pra mim, não me diga que perdoou. Eu sei que isso não aconteceu e nem vai acontecer, pelo menos não tão cedo porque eu não pedi desculpas. Pelo menos não ainda. Precisaria estar desesperada me vendo sem você para fazer isso, ou estar pronta para assumir a culpa sozinha. E entenda, nós éramos dois na relação. Nós dançávamos juntos.

Mas nossa música nunca mais tocou.

Não precisa ser educado ao falar comigo. Tudo o que eu não quero de você é sua educação, se ela for usada para não expressar suas verdadeiras intenções. Na verdade, não quero ganhar nada de ti porque preciso acreditar que quem perde é você. Desperdiçou-me. Desperdiçou o meu amor, meu mel, devargarzinho, de flor em flor.

Me sento na cama e sinto a cabeça pesada, devido ao grande fluxo de sangue e pensamentos. Cazuza ainda canta quando arrasto minha melancolia e o cobertor vermelho até a poltrona do lado da janela. Me encolho e me enrolo no cobertor, como se isso pudesse me proteger de tudo e de você. A chuva parou, assim como o meu choro. Observo até que por fim a última das gotas redondas escorra do vidro. Junto com ela escorre minha última lágrima. Que coincidência é o amor.

“A emoção acabou” – digo ao fechar silenciosamente aquela ferida no meu coração. A nossa música não voltaria a tocar.

Protegi o teu nome por amor. Agora, ele lista entre os meus inimigos, beija flor.

* Conto inspirado na música “Codinome Beija Flor”, do Cazuza, e produzido em 2015 para desafio do grupo Sem Título.

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