O Vestidinho Preto

A garrafa de vinho quase vazia jaz sozinha sobre a mesa, esperando para que possa me proporcionar o próximo gole de alívio e esquecimento. Já não consigo me lembrar do que me fez chorar enquanto calculo a distância entre a poltrona escarlate e a bebida libertadora, do outro lado do cômodo.

Brinco com a taça nas mãos, jogando-a de um lado para outro. Creio que meu objetivo com isso é dar a ela a mesma sensação de tontura e desnorteamento que eu tenho no momento. Rio sozinha, um riso louco e sem vida, incapaz de lembrar meu nome, ou o dia do mês.

Me levanto com cuidado, medindo os movimentos. Esbarro em uma garrafa vazia no chão, que tomba e rola pelo tapete, formando uma trilha de pequenas manchas bordô pelo tecido alvo.

— Oops. — murmuro.

Então aquela garrafa não é a primeira. Hmm. Interessante. Penso, incapaz de realmente me lembrar, e rumo em direção a mesa, tentando, sem nenhum sucesso, tornar firmes meus passos vacilantes. Chego ao meu destino sem maiores problemas, pensando que o vinho no tapete provavelmente será uma dor de cabeça amanhã. Mas, foda-se.

Alcanço a garrafa e despejo os últimos e preciosos goles na taça. Seguro-a de ponta cabeça para aproveitar tudo o que puder e murmuro maldições quando vejo que aquilo é realmente o fim de um relacionamento intenso e nada duradouro.

Pensar nisso me faz lembrar o que fez com que eu me embebedasse, que fez com que eu chorasse e sofresse como há muito tempo não acontecia. Era aquele mesmo motivo clichê, a razão de uma grande parte da dor sentida pela humanidade, o sentimento mais ingrato do mundo: o amor.

Viro a bebida num gole só e antes que isso comece a me afetar, sou uma mulher com uma missão: ir a cozinha buscar mais vinho. Chego inteira, apesar de ter com certeza conseguido alguns hematomas no caminho. Ao conferir a pequena adega no armário planejado, faço uma nota mental: VINHO NÃO É ARTIGO DE DECORAÇÃO. Foram inventados para serem consumidos.

Saio da cozinha decidida a sair para comprar mais bebida. Não quero nem começar a ficar sóbria e me lembrar.

Me vejo no espelho. Estou uma perfeita bagunça. Não posso sair de casa nesse estado, de pijama, roupão e descabelada. Tiro a roupa, jogo-a em um canto e abro o armário, em busca de qualquer coisa que seja fácil de se vestir.

Encontro um vestidinho preto que ainda tem as etiquetas atadas a si. Comprado num desses rompantes consumistas, o coitado está esquecido no fundo do guarda-roupa há séculos. Ele é bem bonitinho, com cintura alta e marcada, ombros de fora, muito brilho e pouco comprimento. Um vestido pra matar, como diria um amigo meu. Um vestido de festa, e não de fossa.

Rodo com o vestido em frente ao espelho e tenho a certeza de que aquilo não foi uma boa decisão quando caio de costas sobre a cama. O teto está rodando e tenho a impressão de que o lustre cairá sobre minha cabeça a qualquer momento. Assustada, tampo meus olhos com o vestido, esperando a pancada. Nada acontece.

As nuvens e as luzes em minha cabeça começam a desaparecer e uma dor pesada toma seu lugar, com um zumbido que vai de um lado para o outro, me irritando. Merda. Nunca fui de beber, então não posso imaginar como será a ressaca provocada por duas garrafas inteiras de vinho.

Logo o zum-zum é substituído por vozes que ecoam das coisas ditas por ele. Fico repentinamente sóbria demais, a realidade de tudo o que aconteceu me invadindo como uma avalanche. Eu já não posso me impedir de reviver as lembranças e de sentir dor.

— Eu estou apaixonado.

— Mas não é assim que eu gosto de você.

— Ainda podemos ser amigos, né?

A vontade que eu tive era de gritar um grande e sonoro “não” quando ele me perguntou isso. Queria ter fechado a porta na cara dele. Queria que uma chuva de meteoritos começasse a cair assim que ele pusesse os pés pra fora do meu prédio.

Tudo começou no momento em que nos vimos pela primeira vez, quando meu chefe o apresentou como meu novo colega de departamento. Logo fiquei encantada com seus olhos castanhos e sorriso fácil. Saímos algumas vezes, aproveitando a companhia um do outro. Conversar com ele era muito simples, os assuntos vinham e iam com a maior naturalidade. Do happy hour sagrado de fim de expediente passamos aos encontros secretos de fim de semana.

Mal percebi quando a vontade de vê-lo passou a ser necessidade, ri quando notei que cada minuto da minha vida se resumia a esperar por ele. Sonhei com todo um futuro, casamentos, filhos, cachorro, crises e a nossa velhice juntos.

Sonhei com tudo isso antes mesmo de algo entre nós realmente começar.

Eu pensava que ele sentia o mesmo. Ele parecia demonstrar sentir o mesmo, tanto que nossos colegas de trabalho nos apontava como o casal 20. Pensando agora, creio que ele também passou por esse momento de confusão em que tudo o que não era real fazia sentido.

Não o culpo por eu ter acreditado em mentiras não ditas e verdades inventadas. O culpo agora por ser o mais novo integrante da lista dos que me fizeram cair de amores e depois sofrer por desilusão. É tudo sempre do mesmo, só uma diferente embalagem.

Quando ele veio na minha casa mais cedo, me dizendo que tinha se apaixonado por outra e que eu era importante o suficiente para ser a primeira a saber, o mundo escapou por debaixo dos meus pés como em um furacão e eu não sabia como reagir. Apenas sorri e acenei. As palavras dele eram macias, cheias de cuidado. Mas de que adiantava isso se elas ainda doeriam?

Depois que ele saiu, chorei. Chorei a dor da desilusão e de um sentimento de rejeição não justificado. Chorei o futuro que eu achei que tivesse perdido, mesmo que ele nunca tenha me pertencido.

Nem o futuro, e nem ele.

Estou cansada de me sentir assim. Não quero me sentir assim. Não quero me sentir como o fantoche de meus sentimentos.

Agora, tiro o tecido negro da frente dos olhos e a claridade me cega. Mas isso me faz ver com perfeição o que precisa ser feito. Se eu quero realmente superar isso tudo e não mais me sentir a maior derrotada da história, eu devo fazer algo a respeito.

Eu devo liberta-lo. Deixa-lo ir. Ele nunca foi meu, na verdade. Eu deveria torcer para que ele fosse feliz com a tal que ele se apaixonou. Deveria esperar um convite para o casamento dos dois, em que eu estaria feliz, poderosa e acompanhado pelo meu alguém especial.

Eu preciso ver gente. Conhecer o meu próximo amor. Esbarrar com ele por acaso e por escolha nunca mais deixa-lo.

E não é em cima da minha cama, e muito menos bêbada que eu vou conseguir tudo isso.

Me levanto e parto para o banheiro, ignorando completamente a tontura que me atinge. Encho a banheira, colocando todos os meus sais de banho. Quando a espuma começa a se formar e soltar bolhas brilhantes, fico admirada com a beleza tão simples daquilo e faço outra nota mental: SAIS DE BANHO NÃO SÃO ARTIGOS DE DECORAÇÃO. São feitos para serem usados.

Tomo o banho das deusas, sem me preocupar com o tempo. Brinco com a espuma e jogo todos os pensamentos no ralo. E junto com eles o sentimento de derrota. Aos poucos um sorriso se forma em meu rosto, e não posso mais ficar parada.

Saio da banheira e começo a me arrumar. Maquiagem, cabelo, acessórios, sapatos. O vestido foi o primeiro a ser escolhido, e me espera sobre a cama. Não sei ainda qual é o meu destino da noite, mas quero dançar até não poder mais. Vou dançar até tudo estar finalmente acabado.

Só quando já estou pronta percebo que o mundo desaba em chuva lá fora. Ela provavelmente estragaria o meu trabalho de horas em arrumação, mas não arruinaria minha noite.

Penso e penso, e quando a tristeza ameaça me invadir novamente, desligo as luzes, acendo os abajures coloridos da minha decoração e ligo o som no volume máximo. A primeira música é aquela que era minha preferida antes que o meu amor por ele ditasse as músicas da minha playlist. Então começo a dançar e me amar.

Estou finalmente sozinha, vestida para o show e indo para lugar nenhum. Digo pra mim que nada está errado, e que minha vida não é e nem tem que ser uma música triste. Se eu chorar, não há problema. Estou sozinha e ninguém precisa me ver chorar.

Estou com meu vestidinho preto, minha música preferida está tocando, e eu vou dançar até que ele esteja longe.

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