E finalmente o sertão virou mar

 minha filha, você não vai nessa viagem não, né?

Viro para meu avô. Seu semblante está sério, pensativo. O relógio está frouxo no braço e a ponta do lenço escapa da algibeira da camisa. Como sempre, está calçando botinas. Mesmo sentado, ele firma a bengala no chão, como se ela o fosse proteger.

 Vou não, vovô. Tenho aulas na faculdade e tenho que trabalhar – digo a ele – Por que?

 to achando que vou ficar aqui com você. To querendo subir naquele negócio não.

Aquele “negócio” é o avião, coisa em que ele nunca andou nos seus sábios 84 anos de vida e que mesmo assim morre de medo. “Lugar de gente é no chão. O céu é coisa para passarinho”, ele costuma dizer.

Não consigo conter o riso e me sento a sua frente na mesa.

 Mas, vô, não precisa ter medo não – eu digo – É seguro. O senhor não vai nem sentir que está lá em cima.

Ele murmura algo e coça a cabeça, bagunçando os cabelos ralos que estão sempre penteados com aqueles oleozinhos perfumados.

Já to “véio” já. Pensa se eu morrer de avião? – ele diz mais alto e eu falho em tentar segurar o riso.

 que que é? – pergunta minha avó, que entra no cômodo ligeira, arrastando chinelinhas pelo piso.

 meu vô tá com medo de andar de avião – digo a ela.

 Oh, mas é bobo mesmo, viu – ela diz com o seu jeito todo severo e impaciente, postura que só assume, geralmente, com ele – tem perigo nada não, sô.

 ê Maria – meu avô diz simplesmente, e encosta a cabeça na bengala que ainda está apoiada firmemente. Ele faz isso quando está pensando na vida e, nesse momento, imagino que ele esteja pensando se vai confiar ou não sua vida àquele “negócio”.

Eu consigo compreender o medo dele. Um “bichão” que nem aquele, feito de aço e que consegue voar, é mais do que ele podia entender. As vezes, é mais do que eu consigo compreender. Depois de tanto tempo andando sobre o lombo de um cavalo e guiando o carro de boi, até a bicicleta (que ele nunca aprender a andar) e os automóveis (que ele nunca aprende a dirigir) eram novidade.

Me lembro de ouvir minha avó contar, assim como muitas outras histórias e cantorias antigas, o rebuliço que foi ouvir o som de um caminhão pela primeira vez. Ela me contou que deixou os seus afazeres e saiu de casa correndo quando ouviu aquele barulhão. Ver aquele troço andando, sem cavalos ou bois pra puxar, foi a coisa mais estranha do mundo.

Ela até conta, com orgulho, que foi a primeira de sua família a andar num deles, quando ganhou carona para ir embora do noivado de conhecidos numa fazenda. O caminhão era novidade para todos e foi a grande atração da noite, enquanto os noivos, coitados, ficaram esquecidos.

E desde sempre, e talvez por causa disso, sempre que um filho ou neto compra um carro novo, meus avós fazem questão de dar uma volta. Pela novidade. E por orgulho também. Quando isso acontece, meu avô, sempre pomposo e com olhos cheios de melancolia, costuma sair do carro, bater a mão na lataria e dizer:

— Que beleza! Bom demais ver meus filhos conquistando as coisas que eu não pude dar pra eles.

Não tem esse na família que não fica com aquele nó na garganta quando ouve essas palavras. Mesmo que não consigam responder na hora e mesmo que palavras não apaguem esse pesar que meu avô tem, todos os nove filhos são conscientes do quanto os pais batalharam para criá-los e todos são gratos por isso.

A vida não foi fácil para eles. Nada fácil.

Se casaram há 62 anos atrás, no dia 29 de maio de 1954, na cidade de Iporá, interior de Goiás. Maria das Dores passava a ser a Maria do Cipriano, com quem teve 10 filhos, sem contar os quatro que não vingaram ainda na gravidez.

Ele, Cipriano Alves Silva, veio de uma família grande. Sua mãe, Maria Rosa, morreu quando ele era ainda muito pequeno, com apenas três anos de idade. Meu avô diz se lembrar dela segurando sua irmã mais nova, Ana, no colo enquanto preparava a comida num fogão a lenha. Quando o perguntei sobre o que aconteceu com ela, meu avô não soube responder direito.

— uai, ela tava grávida, nos dias de ganhar o nenê. Saiu com meu pai pra ir na casa de um parente e passou mal no caminho. Morreu de repente.

Depois da morte da primeira mulher, meu bisavô, Luís Alves, se vendo perdido com quatro crianças pequenas, decidiu que se casaria de novo. A segunda esposa foi outra Maria, Maria Pinto, uma viúva que também tinha um filho pequeno, que Luís criou como seu. Tiveram outros três filhos. A segunda Maria também morreu e Luís se casou novamente.

Nunca conheci meu bisavô, mas conheci sua terceira mulher, a quem carinhosamente chamávamos de tia “Dumira”. Ela cuidou dos sete filhos que o casamento com Luís trouxe na bagagem e teve outros sete. Não é raro ver meu avô perder as contas quando começa a contar quantos irmãos tem. Meu avô sempre fala de Tia Dumira com muito carinho e gratidão, assim como fala da segunda Maria e da Maria que lhe deu a vida.

Meu avô teve pouco estudo, mas diz com orgulho que finalizou a série que seria equivalente ao nosso quinto ano do Ensino Fundamental. Sempre trabalhou na roça e na lida fez de tudo: plantava, colhia, arava, cuidava do gado e da terra. Sempre empregado, nunca patrão. E sempre com a Maria esposa ao seu lado.

Ela, Maria das Dores Dias, se casou aos 19 anos, tarde para os costumes da época. Me confessou que não tinha medo de “ficar para titia”, já que era moça bonita, vistosa, que chamava a atenção dos rapazes. Também veio de uma família grande, de origem mineira. Tem mais cinco irmãs e dois irmãos, dos quais é a mais velha ainda viva. Teve criação sob os costumes católicos e fica indignada ao ver o que as pessoas fazem em dias santos:

— No meu tempo, ninguém fazia nada na sexta feira da paixão. A gente deixava tudo de comida pronto no outro dia, pra não precisar mexer com faca. Nem pentear o cabelo a gente podia!

Teve pouco estudo e não chegou a terminar nenhuma série escolar. Ela diz que, naquela época, “era tudo muito custoso, difícil”. Frequentou escolas rurais,  os chamados “grupos”. Aprendeu o bê-a-bá nas cartilhas, com professoras que iam e viam. Minha avó costuma trocar algumas letras e escrever números ao contrário, mas isso não a impede. Gosta de ler a Bíblia e o faz em voz alta, sempre parando para comentar algum versículo quando o acha interessante.

Muito curiosa e “espicula”, como ela diz, para para ler letreiros e cartazes na rua, como uma criança pequena. Sai triunfante quando termina de juntar as palavras, anunciando o que aprendeu de novo, seja um endereço ou o horário de funcionamento de um estabelecimento.

Se dedicou com esmero a criação dos filhos e aos cuidados da casa, transformando o pouco que tinham em suficiente para alimentar todas aquelas bocas. Fez literalmente das tripas coração e usou da criatividade para driblar a fome, que, muitas vezes, ameaçou avançar sobre sua casa. Vestiu os filhos com o algodão que plantou, colheu, “descaroçou”, cardou, fiou e levou para o tear.

Um ano e três meses após o casamento, nasce a primeira filha do casal, Marli. O primeiro menino, Amilton, chegou no ano seguinte. E depois Randismar. E depois Marlene. Madalena. João Batista. Marcilene. Edimárcio. Ronis. E finalmente, Júnio.

O caçula, Júnio, é hoje apenas uma lembrança, infelizmente. Morreu com quase dois meses de vida, tendo tido complicações desde o seu nascimento. Minha avó quase nunca fala sobre ele, mas me lembro de uma das raras vezes em que ela me contou algo a respeito:

— ah, ele não tinha jeito não, não ia vingar – Ela diz, completando com o alerta que o médico lhe dera sobre não ter mais filhos, já que o estado debilitado da criança estava relacionado a idade da mãe, já com 47 anos quando ele nasceu. Só os dois filhos mais novos nasceram no hospital. Todos os outros vieram ao mundo em casa, pelas mãos de parteiras.

E a saúde dessa meninada toda sempre foi motivo de grande preocupação para eles. Quando perguntei para minha avó qual havia sido o momento mais difícil de sua vida, ela disse sem hesitar:

— quando algum dos meus meninos ficava doente.

Meu avô deu resposta semelhante, mas destacou um momento específico e que marcou a todos: aos catorze anos de idade, Amilton, o segundo filho, sofreu um acidente gravíssimo. Ele e Randismar, irmão mais novo, voltavam da roça depois de um dia de trabalho com o pai. Amilton carregava uma carabina, que disparou acidentalmente quando ele passava debaixo de uma cerca. Estilhaços das balas se alojaram por todo o seu tórax, um deles tão próximo ao coração que nos faz acreditar em milagres.

Amilton foi levado para a cidade na carroceria do jipe de um tio e quase não sobreviveu a viagem, devido ao sangramento intenso. Ficou meses internado, entre a vida e a morte, praticamente sem esperança de recuperação. Minha avó ficou com ele o tempo todo no hospital, enquanto familiares vinham de longe para visitar o seu filho, por medo de não mais vê-lo vivo.

Mas ele sobreviveu, contra todas as expectativas. Se recuperou, cresceu, casou-se e hoje é o orgulhoso avô de três netos. Se o perguntamos sobre o que aconteceu, ele diz não se lembrar. Talvez assim seja melhor, já que meus avós sempre dizem ter sido “sofrimento por demais”.

Mesmo com todas as dificuldades e sofrimento, Maria e Cipriano conseguiram criar os filhos. Passaram por quatro fazendas diferentes antes de se mudarem para a cidade. Minha mãe, Marlene, foi a primeira a ir para Amorinópolis, no interior de Goiás, quando convidada a trabalhar na casa de conhecidos. Logo depois seus pais compraram a casa que moram até hoje, na Avenida Maranhão, número 650, e se mudaram.

Ali, na cidade com nome amoroso e onde ganhei boa parte de minhas boas memórias da infância, meu avô trabalhou como guarda, patrulhando a cidade durante a noite. Minha avó ajudava no orçamento vendendo rosquinhas doces, que eu posso lhe garantir que são as melhores do mundo! Nunca paro na segunda ou penso na dieta quando minha avó tira a fornada de roscas do forno.

Na cidade as coisas foram melhores, fizeram amigos e os anos passaram, chegando a aposentadoria. Mesmo com o salário assegurado pelo INSS, meu avô continuou trabalhando, mas agora em casa, fazendo vassouras. E cuidava de tudo: colhia a palha e a madeira para o cabo, preparava as folhas, as punha para secar, cortava, amarrava. Melhor lábia do que a do seu Cipriano não existe, e garantia a todos que vendia as melhores vassouras. E vendia mesmo, já que nenhum cliente voltou para reclamar, e sim para comprar mais uma.

Hoje já não faz mais isso, já que o desgaste e fortes dores nos joelhos o impossibilitam de ficar de pé durante muito tempo. Meu avô agora se apoia na sua bengala e na sabedoria de tanta vida vivida. Ele se apóia na fé, também.

Convertidos ao protestantismo depois que se mudaram para a cidade, meus avós frequentam a Igreja Assembléia de Deus. Leem a Bíblia com a atenção e assistem aos cultos de outras igrejas transmitidos pela televisão. Se lembram dos dias santos e dos dias de santos celebrados pela Igreja Católica, sempre que me lembrando que não, não é rezando pra Santo Expedito que vou arrumar um marido. Mas não é ele é santo das causas impossíveis? São fiéis, e não fanáticos, demonstrando um respeito raro pela orientação religiosa do outro, coisa que não se vê em qualquer jovem. Ter um genro espírita, meu pai, por exemplo, foi para eles algo natural e que sempre respeitaram.

Não posso afirmar que a convivência com esse genro, meu pai, tenha sido sempre um mar de rosas. Digo isso por que o seu Raimundo, meu pai, um baianinho baixinho, era sempre muito enfático no que acreditava, principalmente no que tocava a política, que é um ponto sensível para o seu Cipriano, meu avô, filiado ao PMDB desde a década de 1970. Eles discutiram algumas vezes, mas meu pai sempre respeitou meu avô e me incentivou a ser próxima deles como não pude ser dos pais dele, que morreram antes de eu nascer.

Quando meu pai faleceu, dez anos atrás, devido a complicações de uma doença que o escravizara por mais de trinta anos, meus avós estavam ao meu lado e ao lado de minha mãe. Meu avô me dissera que era a mesma dor de perder um filho, talvez ainda pior, por que via a sua filha sofrer. Adotaram como netos os filhos do primeiro casamento de meu pai, e estiveram conosco durante todo o período de luto. Mesmo que não falassem muito, e que fosse muito pesado para eles tentar nos consolar, só a presença deles nos confortava, como um esteio para sanidade em meio àquela dor imensa.

Esse é o estilo deles, eu poderia dizer. Mais quietos, porém sempre presentes e sempre com a opinião pronta para ser entregue para quem a pede e, as vezes, para quem não pede também. Minha avó gosta de saber de tudo e de todos, sempre ensinando a melhor forma de fazer isso e aquilo. Meu avô é o brincalhão, sempre rodeado pelas crianças famintas por suas piadas, causos e pegadinhas. Já não consegue correr atrás dos netos, afinal, são mais de oitenta primaveras.

Graças a Deus, são saudáveis. Tirando o desgaste na cartilagem do joelho e a pressão alta, meu avô é saudável como um jovenzinho. Minha avó também tem pressão alta, e além disso diabetes, que a deixa debilitada quando ela teima em comer aquele doce de leite que teimou em fazer. E ela adora comer!

Tanto, que nos preparativos para a grande viagem, a primeira de avião e a primeira à praia, a saúde deles não foi preocupação. Minha avó sofreu um acidente em casa, trincando minimamente um osso da bacia no começo do ano, mas se recuperou a tempo.  

Preparativos feitos, é chegada a hora! Minha avó me confessou ter perdido as esperanças de conhecer o mar antes de morrer, e estava radiante quando os levei ao aeroporto, a todo o momento agradecendo as filhas que arranjaram tudo. Meu avô, ainda cabreiro, estava meio calado, ansioso. Perguntei a ele se estava com medo enquanto nos despedimos:

— Não, to tranquilo. Num dá nada não, né? Nós vamos com Deus.

— vão sim! Estarei esperando vocês daqui a uma semana!

Me despedi de todos quando tiveram que ir para a sala de embarque. Meus avós, tios e primas estavam todos ansiosos. Minha mãe não tanto. Ainda inconformada por ter de me deixar aqui, chorava. Minha avó dizia a ela para se acalmar, por que “filho cresce”.

Algumas horas depois recebi a primeira imagem deles em umas das praias de Cabo Frio, no Estado do Rio de Janeiro. Amparados por minha tia, os dois foram até a água, e, como sempre, juntos, experimentaram esse pedacinho de vida.

Segundo minha mãe, quando minha avó viu a imensidão do mar tocando o céu, começou a perguntar pela beirada. Queria achar o fim, onde tudo acabava. Mas não é possível! Já que tudo tem um fim, o mar também devia ter o seu. Mas logo se conformou, vendo naquilo uma obra de Deus.

— Vó, a senhora bebeu água do mar? – perguntei quando voltaram.

— bebi – ela disse, orgulhosa.

— é salgada, né?

— demais da conta! – e soltou uma gargalhada gostosa.

Durante os sete dias em que estiveram lá, meu avô não se cansou de ver a água indo e voltando, indo e voltando. Se sentava em frente ao mar e observava as ondas. Quando o perguntei o que ele pensava ao ver aquele mundão de água, me respondeu simplesmente:

— se tinha alguém me olhando do outro lado.

Não pude não me emocionar com aquelas palavras e percebi que a sabedoria, aquela dos meus avós, é adquirida com vivência, com tapas e afagos da vida. Resolvi sempre ouvi-los, mesmo quando estão repetindo pela centésima vez uma história que eu já conheço. Devo aprender tudo o que puder com eles, absorver suas palavras e passar para os meus netos, no futuro, o que me ensinaram.

Quando voltaram “pro nosso Goiás”, minha avó reclamava de saudade de casa, já que velho não fica muito tempo longe do ninho. Meu avô já não tem mais medo de avião e quer repetir a viagem pelo céu outras vezes, segundo ele “o melhor meio de transporte que tem!”.

Minha tia organizou um álbum com as fotos da viagem e levou para a casa dos meus avós. O álbum fica agora em cima da mesa da sala, para quem quiser ver. Se por acaso você os visitar na Avenida Maranhão, número 650, em Amorinópolis, pegue o álbum. Meus avós vão se sentar do seu lado no sofá e lhe contar como foi a primeira vez no céu e na praia. Vão lhe contar como uma vida no sertão, por fim, virou mar.

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*Perfil Jornalístico produzido para a disciplina de Jornalismo Literário do curso de Jornalismo da UFG em 2015.

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